Amsterdã: Nos passos de Rembrandt


Por Cristina Azevedo

Rembrandt Von Rijn, "Ronda Noturna" 359 x 538 cm. Acervo do Rijksmuseum

Poucas vezes a história produziu uma combinação tão feliz como o encontro de Rembrandt com a Amsterdã do século XVII. A cidade, que vivia um período áureo, foi o cenário perfeito para o pintor desenvolver seu talento e criar algumas de suas obras-primas. E, quando alguma pessoa perguntava se não desejava conhecer outros países, ele respondia que ali mesmo havia inspiração para toda sua obra.

O Século de Ouro está vivo! Essa é a primeira impressão que se tem ao caminhar pelas ruas cortadas por canais do centro histórico de Amsterdã, onde as estreitas casas geminadas lembram pequenos blocos de brinquedo. A variedade de sotaques também é a mesma da época em que a cidade era um dos principais portos comerciais do mundo, recebendo navios de diferentes bandeiras. Por isso, não é difícil entender como um jovem pintor recém-chegado de Leiden se apaixonou pela cidade e resolveu passar ali toda a sua vida – estabelecendo uma ligação tão forte a ponto de hoje ser impossível pensar na Amsterdã de século XVII sem se lembrar de Rembrandt.


Se atualmente a cidade recebe turistas de diversas partes do mundo, no século XVII essa procura era proporcionalmente ainda maior, alcançando um crescimento populacional extremamente rápido. Para se ter uma idéia, em 1546 Amsterdã tinha apenas quatorze mil habitantes, passando para sessenta mil em 1600 e chegando aos duzentos mil na metade do século. Era, então, a terceira cidade da Europa, depois de Londres e Paris. Se o crescimento tivesse continuado nesse ritmo, a cidade teria hoje muito mais do que os cerca de um milhão de habitantes que possui.
Atrás dessa prosperidade iam pessoas de diversas partes do mundo, especialmente comerciantes. E em busca do dinheiro dos patronos e de clientes ricos seguiam pintores, arquitetos e outros artistas, transformando Amsterdã na capital cultural do Reino dos Países Baixos. Foi esse panorama que Rembrandt Harmenszoon van Rijn encontrou.

 Apesar das influências causadas pelo contato com outros países, Amsterdã acabou por desenvolver arquitetura própria, reconhecida em todo o mundo. Nela se destacaram as casas de fachada estreita, assim projetadas para pagar menos impostos.

Seguindo as biografias, as poucas cartas e documentos legais deixados, é possível reviver a Holanda e, principalmente, a Amsterdã que Rembrandt conheceu. O pintor nasceu em Leiden, província na região sudeste do país, em 15 de julho de 1606. Ele era o sexto filho de uma família com sete crianças, cujo pai, Harmen Gerritszoon, trabalhava num moinho na beira do rio Reno (daí o sobrenome Van Rijn) e a mãe, Neeltgen Willemsdochter van Zuytbrouck, era filha de um padeiro.
Apesar da vida simples, não se pode dizer que o jovem tenha passado alguma dificuldade financeira. Ao contrário dos irmãos, que começaram cedo a trabalhar, Rembrandt foi mandado para a Escola de Latim, seguindo depois para a Universidade de Leiden, onde foi registrado como aluno ais 14 anos. A universidade, construída em 1575, já era conhecida nessa época como um local de livres-pensadores. Alguns de seus biógrafos acreditam que talvez ele estivesse interessado apenas nos privilégios que os alunos recebiam, como escapar do serviço militar e não pagar impostos sobre a bebida consumida, pois muito cedo ele havia revelado a vontade de se tornar um pintor. A verdade é que permaneceu somente poucos meses na instituição.

A casa onde o pintor viveu (à esquerda) é hoje o Museu Rembrandt. Em seu interior (a direita), móveis da época, e o maior acervo de desenhos e gravuras do artista: cerca de 300 trabalhos, dos quais 250 em exposição permanente

Após largar os estudos, Rembrandt pôde se dedicar mais ao desenho e à pintura, passando a ter aulas com Jacob van Swanenburgh, num aprendizado que durou três anos. Depois de esgotadas as possibilidades de estudo em Leiden, Rembrandt decidiu ir para Amsterdã, onde se concentravam os principais pintores holandeses da época. Lá, ele conheceu Pieter Lastman, que seria decisivo para seu trabalho. Lastman não só era apaixonado pelas figuras históricas, mitológicas e bíblicas (que mais tarde apareceriam com frequência nos quadros de Rembrandt), como dominava a técnica do claro-escuro, na qual a luz era fator decisivo para apontar a figura ou os detalhes principais, deixando o restante em segundo plano, nas trevas. Esse contato viria a influenciar o trabalho de uma vida inteira.
A cidade que cativou o jovem pintor estava em constante ebulição. Os navios não traziam apenas riquezas, mas também a influencia de outras nações. No século anterior, casas de madeira começaram a ser substituídas pelas de pedra e, com a influência da Renascença e dos arquitetos italianos, as fachadas com janelas salientes haviam dado espaço às paredes verticais, com o frontão em degraus. Estes também foram substituídos, já no século XVII, por outros em formato de sino.

A presença de Rembrandt na cidade pode ser notada tanto em suas obras nos museus quanto na homenagem simples dos habitantes, como o bar que recebeu seu nome (canto superior esquerdo da foto acima)



A cada dia uma nova parede era erguida para abrigar os imigrantes

O mais interessante é que a cidade acabou gerando uma arquitetura própria, que se distingue de qualquer outra encontrada no mundo, pois a maior parte dos arquitetos jamais saíra do país e, assim, eles interpretavam ao seu modo o que aprendiam em teoria. Além disso, havia uma necessidade de adaptar a informação dos livros às exigências locais. Tudo isso e mais as ruas cortadas por canais criaram uma paisagem única no mundo.
A Amsterdã que Rembrandt conheceu em sua primeira viagem via erguer a cada dia uma nova parede para abrigar o aumento da população. As ruas estavam repletas de estrangeiros e artistas, e já nessa época a cidade era conhecida pela forma simpática como recebia os visitantes.

Rembrandt – “A ponte de pedra” (1638), óleo sobre madeira, 29,5 x 42,5. Possivelmente uma vista de Ouderkerk, onde existia uma ponte de pedra, a Binnem Benningbrug, que foi demolida 1649


Depois de seis meses de estudos, Rembrandt teve que voltar para Leiden, onde abriu um estúdio com outro ex-aluno de Lastman, Jan Lievens. Foi nessa época, através do patrono Constantijn Huygens, que Rembrandt conseguiu uma de suas primeiras grandes encomendas: cinco quadros ilustrando a paixão de cristo para o Príncipe Frederik Hendrik de Orange. Lievens viajou para o exterior, a fim de mostrar seu trabalho e aprender mais, e Rembrandt decidiu continuar na Holanda: ele acreditava que o país continha inspiração suficiente para toda sua obra.
O artista não havia esquecido a cidade que se transformara em capital cultural do país, e em 1631 resolveu se transferir definitivamente para Amsterdã. Logo no ano seguinte, um de seus trabalhos conseguiu grande repercussão: Lição de Anatomia do Professor Tulp, que mostra a dissecação de um cadáver. Já nesse quadro se observava a tendência do pintor em retratar pessoas desempenhando suas funções habituais.
Assim que chegou a Amsterdã, Rembrandt foi morar na casa de um marchand chamado Hendrik van Uylenburgh. Juntos criaram uma espécie de academia de artes, onde os alunos copiavam o trabalho de artistas, incluindo o trabalho do próprio Rembrandt, que mais tarde eram vendidos.

A beleza da cidade e das redondezas traduzidas pelo cuidadoso bico-de-pena. Rembrandt desenhou também os moinhos que ficavam nas antigas fortificações em volta da cidade, como em O Moinho, de 1641 (acima). 

Foi nessa casa que o pintor conheceu Saskia, prima do marchand e que viria a ser sua primeira mulher. Como Saskia vinha de uma família influente, o casamento fez com que Rembrandt conseguisse uma posição social de maior destaque. Começava sua fase mais próspera.
Amsterdã era a cidade mais interessante da Europa e em muito pouco tempo o pintor seria considerado o homem mais interessante daquela cidade. O mundo estava a seus pés e Rembrandt o deliciava com sua arte e sua generosidade. Ele passou a ser o mais popular pintor de retratos de Amsterdã e mesmo cobrando caro, conseguia mais encomendas do que podia atender.
Gostava de viver, esse filho de um moleiro de Leyden cujo moinho ficava na beira do rio Reno (daí o sobrenome Van Rijn), e gostava de ver os outros viverem. Sua extravagância se compara somente à sua generosidade. Seu dinheiro derrete-se como neve sob a luz de sua boa índole. Jóias para a mulher, banquetes para os amigos e empréstimos sem garantia a todos que lhe pediam. É estranho que um homem do norte tivesse podido ser tão tropical em seu caráter e em seu gênio. Porque seu gênio era quente, agitado, violento, rico. Resplandecência de cores, fortes contrastes entre a luz e a sombra, vermelhos profundos, púrpuras vivas, e azuis brilhantes – eram essas algumas de suas principais características. E, acima de tudo, uma arrebatada e impetuosa técnica. Muitas das figuras, nos grupos de seus quadros, parecem nascer para a vida, a uma simples pincelada. Ele foi um dos mais rápidos tanto quanto um dos mais perfeitos pintores. E pintava sem cessar.

Em Omval, de 1645 (à direita), aparece a pequena faixa de terra na margem do Amstel, que foi pintada por Rembrandt diversas vezes. Desse ponto, ele tinha uma visão privilegiada de Amsterdã

As longas caminhadas pelos arredores da cidade produziram belos desenhos em água-forte, onde os canais, as árvores e os moinhos predominavam. Nos trabalhos por encomenda, a natureza cedia lugar à figura humana, que variava entre os personagens bíblicos e os rostos de seus clientes. Mas, muitas vezes, ele preferia apenas retratar a própria família, e Saskia parecia ser o seu modelo principal. Desde que se conheceram, ela passou a aparecer em seus quadros com freqüência, seja dormindo, embalando uma criança ou mesmo representando personagens. E pintou seu próprio retrato repetidamente. Não por vaidade - mas pelo puro prazer de viver. Expressar-se individualmente era a verdadeira aspiração de sua vida, e o auto-retrato era simplesmente um modo mais íntimo de alcançar essa expressão. Pintando-se a si mesmo, nunca se lisonjeava. Era impiedoso tanto para expor as fraquezas quanto a força de seu caráter.

Com geografia e a identidade desenhadas pelos canais, Amsterdã deve até mesmo o nome ao rio Amstel, que a corta, e ao dique (dam) construído para contê-lo. Ela acabou conhecida com a Veneza do Norte

Por trás da felicidade dos dois, havia uma série de tragédias familiares. Os três primeiros filhos morreram poucos meses após o nascimento. Apenas a quarta criança, Titus, sobreviveu. Entretanto, Saskia morreu alguns meses depois, em 1942. O mais curioso é que foi justamente nesse ano que Rembrandt fez seu trabalho mais famoso: Ronda Noturna, por encomenda da Corporação dos Soldados.

Outros locais traziam lembranças tristes para o pintor, como Zuiderkerk, igreja onde foram enterrados seus três primeiros filhos, que morreram poucos meses após o nascimento


A mudança num comando militar vira uma obra-prima

            A Corporação havia encomendado o trabalho a seis pintores: cada um seria responsável por uma parte, com determinados personagens. Numa época em que não havia a fotografia, era comum que as associações buscassem painéis onde seus integrantes aparecessem. E Rembrandt resolveu o problema do claro-escuro: escolheu o momento em que o Capitão Frans Banning Cocq passava o comando para o tenente, mostrando assim todos os integrantes da companhia, mas deixando a luz atingir apenas as figuras mais importantes, transformando os demais em coadjuvantes. Como um fator inesperado, no meio da cena, surge uma menina bastante iluminada. O interessante é que o quadro era muito mais do que um retrato: ele representava uma ação, e talvez por isso tenha dado origem a discussões. Como projeto de grupo, o trabalho falhou, pois os estilos dos seis pintores eram muito diferentes e foi impossível dar uma unidade. Mas, individualmente, Rembrandt conseguiu uma obra prima.
            Após a morte de Saskia, o pintor empregou uma viúva, Geertje Dircx, para cuidar de Titus. Ela acabou se transformando em sua amante, mas o caso durou pouco, porque logo depois ele conheceu Hendrickje Stoffels, com quem viveria até a morte, apesar de não terem se casado. (Uma cláusula no testamento de Saskia puniria uma nova união.) Apesar de Rembrandt nunca ter feito um quadro em que Hendrickje fosse identificada pelo nome, ela pode ser vista como modelo em diversas obras, como Mulher se Banhando.

A figura humana colocada em primeiro plano. As pessoas eram o elemento principal das telas, e a técnica do claro-escuro servia para destacá-las. Isto pode ser observado em quadros como Ronda Noturna (primeira imagem da matéria) ou Dama e Cavalheiro em Negro (acima)


            Embora Rembrandt sempre tivesse interesse na natureza, foi nessa época que se intensificaram os desenhos de Amsterdã. Ele dava longas caminhadas pelas ruas e redondezas da cidade, o que resultou na maior parte das trezentas gravuras hoje expostas no Museu Rembrandt, além de pinturas. Foram esses passeios ao longo do rio Amstel que inspiraram trabalhos como A Ponte de Pedra.
            Após a morte de Saskia começaram os problemas financeiros, e, para completar o orçamento, Rembrandt passou a ensinar novamente. Considerado um mestre pouco ortodoxo – na época os seguidores da Renascença tradicional cobravam de seus pupilos o uso perfeito da anatomia e da perspectiva, enquanto Rembrandt valorizava mais as expressões faciais – teve entre seus alunos pintores que mais tarde se destacaram na arte holandesa, como Govert Flinck, Nicolaes Maes e Ferdinand Bol. Com o passar dos anos, Rembrandt acabou perdendo encomendas para os aprendizes, que se mostravam mais abertos às novas tendências da pintura e às exigências dos clientes.
            Apesar de ter ganho muito dinheiro, o estilo de vida do pintor acabou por levá-lo a problemas financeiros cada vez maiores. Para fugir à falência, foram necessárias algumas medidas, como fazer um inventário de suas posses e a venda da casa (que mais tarde foi transformada em museu). Nesse inventário constava um grande acervo, que incluía pistolas, elmos, uma máscara funerária do Príncipe Frederik Hendrick, trabalhos de arte oriental, cristais de Veneza, além de setenta quadros de dezenas de desenhos do próprio pintor. Muitas dessas peças acabaram leiloadas para pagar as dívidas. A clientela escasseia  e desaparece, o artista arruína-se: a 4 de dezembro de 1657, coleção e móveis vão a leilão. Depois a própria casa seria vendida e ele se muda para uma casa pequena e insalubre no gueto judeu. Mas sua arte continuou subindo a maiores e maiores alturas. Agora pintava a humildade do pobre – os camponeses holandeses, os pescadores, os rabinos e doutores judeus em suas preces. Característico desse período é o "Tobit Cego". Nessa época, sua vista começou a falhar. A fim de manter sua maestria no detalhe, era agora obrigado a pintar os retratos maiores do que o natural. As qualidades essenciais de sua arte começavam, devagar, mas definitivamente, a deixá-lo.

O gosto pelas passagens bíblicas se transformou numa fonte de inspiração constante para os trabalhos de Rembrandt. Isso o acompanharia por toda a vida. Entre as telas de fundo religioso estão A tempestade no mar da Galiléia

Não era apenas Rembrandt que enfrentava problemas. A rivalidade com a Holanda levou a Inglaterra a promulgar em 1651 o Navigation Act, através do qual as mercadorias estrangeiras somente poderiam entrar no país se fossem transportadas por navios ingleses ou por embarcações da nação produtora – uma medida que teve impacto sobre a economia de Amsterdã. As disputas se acirraram e no ano seguinte foi declarada a guerra entre os dois países. William Blake, um pirata que agia sob ordens da coroa britânica, havia sido instruído para interromper o comércio holandês no Báltico. A paz, declarada alguns anos depois, durou pouco, e em 1665 uma segunda ocorria entre os dois países.
Apesar de a cidade não ser atingida diretamente pelo conflito, sua população sofria os reflexos. Os problemas financeiros de Rembrandt aumentavam e as encomendas se tornavam cada vez mais escassas. Mesmo assim, o pintor ainda conseguiu grandes trabalhos, como o quadro para o Sindicato da Indústria Têxtil, De Staalmeesters, em 1662. Nesse mesmo ano, Hendrickje morreu vítima da peste.
Em 1665 começava uma guerra entre a Holanda e a Inglaterra que só terminaria com o Tratado de Breda, em 1667, que passava a posse de Nova Amsterdã (a atual Nova Iorque) aos ingleses. Enquanto isso, o pintor, sozinho novamente, tinha que enfrentar outra tragédia em sua vida particular. Em 1668, Titus morreu, sete meses após o casamento. Há poucos registros sobre o pintor depois disso. Rembrandt morreu no ano seguinte, em 4 de outubro de 1669. Na época, o fato não despertou muito interesse, mas com o passar dos anos o prestígio em torno de seu trabalho foi crescendo, e hoje quadros como Ronda Noturna têm valor incalculável.
Ainda no século XVII, os holandeses tiveram que lutar novamente, desta vez contra uma poderosa aliança entre franceses e ingleses, a qual então ameaçava não apenas as rotas comerciais e as colônias, mas o próprio território nacional. As guerras e as intrigas políticas acabariam por encerrar a fase áurea da cidade.


O presente e o passado nas ruas que o mestre conheceu

            Mas, caminhando por Amsterdã, é possível notar que ainda há muito daquela época, e o mais incrível é constatar que os antigos prédios aliam a beleza das construções do século XVII às facilidades da vida moderna. Dessa forma, não é mais necessário enfrentar as longas escadarias de madeira que ligavam os diversos andares: pequenos elevadores foram convenientemente instalados em prédios várias vezes centenários e sistemas de aquecimento permitem enfrentar os rigores do inverno holandês.
            As carruagens foram substituídas por um eficiente sistema de transporte, que inclui ônibus, trams (os bondinhos coloridos), trem, metrô e os barcos que passeiam pelos canais. Mas o visitante precisa ter cuidado com um outro meio de transporte que é uma verdadeira mania nacional: as bicicletas que cortam as ruas em alta velocidade.
O ponto que concentra todas essas opções de transporte é a Estação Central, um extenso prédio de tijolos de onde partem linhas de trem para todas as partes do país. A estação fica próxima à área mais antiga da cidade, onde os grandes mercadores tinham as suas casas (construções altas, estreitas e geminadas, assim projetadas para diminuir os impostos, cobrados de acordo com a largura de frente). As famílias mais influentes moravam ao longo do Herengracht (Canal dos Cavalheiros), do Keizersgracht (Canal do Imperador) e do Prinsengracht (Canal do Príncipe).

Uma viagem através do tempo pelas águas calmas dos canais. Andando por Amsterdã ainda é possível encontrar muito do que o pintor conheceu. Para isso contribuem os canais, que se transformaram em cartão-postal da cidade, e a preservação de sua arquitetura, em boa parte remanescente do Século de Ouro. Na foto o Damrak, de onde partem os barcos de turista

Em geral, as casas de aparência mais austera são os antigos depósitos, que antes serviam para estocar as mercadorias trazidas do exterior e foram transformados em verdadeiras mansões. Denunciando a sua atividade original, permaneceu no alto da fachada o gancho que servia para içar os sacos de produtos e que agora é eventualmente usado para levantar algum móvel e fazê-lo entrar pela janela.
Apesar de sua economia sólida, a Holanda (em especial Amsterdã) nunca conseguiu reviver o Século de Ouro. Entretanto, não se pode dizer que a cidade tenha entrado em decadência. O mais correto seria pensar que ela parou no tempo e sobreviveu como uma lição de arte e história, e que Rembrandt, além de seu inquestionável talento, foi uma pessoa que esteve no local certo, na hora certa.
Diversas construções do século XVII estão associadas ao artista, como o prédio em Nieuwmarkt, que foi reconstruído e transformado na Casa do Peso. No andar de cima da Casa do Peso funcionava a Corporação dos Cirurgiões, responsável pela encomenda de algumas das obras mais famosas do pintor, como Lição de Anatomia do Professor Tulp, de 1632 (atualmente na Casa Maurício de Nassau, em Haia), e Lição de Anatomia do Dr. Deijman, de 1656 (cujo fragmento está em exposição no Museu Nacional de Amsterdã).
É preciso ir até um hotel para descobrir a história de uma de suas obras mais famosas, Ronda Noturna. O Doelen Hotel passou a ocupar, a partir de 1882, o prédio onde funcionava a Corporação dos Soldados. O local não era destinado apenas às reuniões. Nele também eram dadas as aulas de tiro e por isso o hotel adotou o nome Doelen (alvo, em holandês).
Essa sociedade forte e próspera era, durante o século XVII, uma grande patrocinadora dos pintores. Por sua encomenda, Rembrandt pintou, em 1642, a Companhia do Capitão Frans Banning Cocq, que ficou mais conhecida como Ronda Noturna. Durante uma das últimas grandes restaurações do Doelen, há alguns anos, decidiu-se retirar todo o revestimento da parede externa onde a gigantesca pintura foi exposta por cerca de 75 anos e mantê-la em seu estado original, com uma fotomontagem para indicar exatamente onde o quadro ficava.
Era comum sindicatos e associações contratarem serviços de pintores, pois a prosperidade da cidade era acompanhada também pela de seus habitantes. Rembrandt foi requisitado, em 1662, já nos últimos anos de sua vida, pelo Sindicato da Indústria Têxtil para pintar um quadro dos seus integrantes mais importantes. A obra, De Staalmeesters, ficava na sede do sindicato (entre a Staalstraat e a Groenburgwal), erguida por volta de 1630 e que se transformou no centro da produção têxtil de Amsterdã. A bela fachada do prédio mostra a arquitetura original.
A obra hoje está no Rijksmuseum* Há alguns anos, ela foi seriamente danificada e precisou de mais de um ano para ser restaurada. No museu estão ainda outros 21 quadros do pintor, que incluem A Noiva Judia, e obras de seus alunos, como Ferdinand Bol e Gover Flinck, além de conter a maior coleção de arte holandesa do mundo.
Depois disso, o melhor a fazer é sair pela cidade, observar os seus canais e as construções antigas, respirando todo o ar do século XVII que ainda paira sobre o centro histórico e que contrasta com a animação dos jovens nos bares e cafés. O visitante deixa Amstardã com a certeza de que o Século de Ouro não acabou e com a vontade de retornar em breve. 

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