Joias do Czar


Desde Ivan IV, o Terrível (1530-1584) - o primeiro a usar o título de czar -, os imperadores mais ricos da Rússia foram os da dinastia Romanov, a mais poderosa de seu tempo. Historiadores e especialistas afirmam que as joias da coroa czarista faziam as joias das outras casas reais da Europa parecerem bijuterias. Pois bem, muitas dessas joias e objetos dos Romanov, que governaram a Rússia durante três séculos, foram vendidos e dispersos por todas as partes do mundo.
Agora, surge um raro e antigo livro que revela numerosas imagens / desenhos da coleção de joias e objetos do czar Nicolau I e até de outros czares da dinastia Romanov. O livro, acondicionado em caixa de madeira forrada de couro medindo 59 x 44 x 12, pesando aproximadamente 15 quilos, mostra 217 gravuras medindo 53,5 x 39,5 cm; são cromolitografias de tronos, coroas, cetros, joias, presentes, mantos, portais, altares, castiçais, cálices, jarros, ícones, elmos, carruagens, etc. Peça de um colecionador russo, esta preciosidade será oferecida ao mercado no próximo Salão de Arte na Hebraica, em São Paulo.

Os problemas com as joias e objetos do clã Romanov começaram em 1914, com a ameaça de uma possível invasão alemã devida à Primeira Guerra Mundial. Toda a coleção de joias da família imperial russa foi cuidadosamente empacotada e enviada de São Petersburgo para Moscou, onde foi enterrada em criptas existentes debaixo do palácio do Kremlin.
A palavra kreml, em russo antigo, significa cidadela fortalecida. Os muros do Kremlin e suas torres de vigia tinham por finalidade a defesa do principado de Moscou contra as invasões dos mongóis e dos tártaros. O Kremlin foi destruído e reconstruído várias vezes durante a Idade Média e, dentro de seu recinto, catedrais e palácios foram edificados ao longo de vários séculos. Quando Ivan IV ascendeu ao trono, adotou o título de czar, sendo coroado em 1547 na catedral da Dormição (o Adormecimento da Virgem), onde, a partir daquela época, foram realizadas as mais importantes cerimônias do reinado dos czares, especialmente coroações, casamentos e enterros. Aos poucos, o Kremlin foi se tornando um majestoso monumento, único na história da arquitetura e das artes, declarado recentemente Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco.
Voltando às coleções, os conflitos políticos na Rússia, incluindo a revolução de 1917 e a consequente guerra civil fizeram o destino das joias imperiais um mistério até 1926, quando foram encontradas no Kremlin, catalogadas e fotografadas. Uma enorme seleção de peças, que compreendia aproximadamente 70% do total das coleções originais, foi vendida a um consórcio americano e, posteriormente, estas joias foram a leilão na casa londrina Christie's em 1927. As joias vendidas foram dispersas por todas as partes do mundo e muitas têm até hoje paradeiro desconhecido. Sabe-se que parte das coleções estão no Museu Ermitage, uma outra parte numa fundação nos Estados Unidos e algumas peças estão espalhadas por importantes museus do mundo.
Grande parte das joias e objetos do clã Romanov, que assumiu o trono em 1613, ficando no poder até 1917, até ser expulso do palácio pela revolução bolchevique, acabou ficando sob os cuidados de uma certa Fundação de Cooperação Cultural Russo-Americana, que foi criada para fortalecer as relações entre os dois paises. Recentemente, em 1997, esta fundação gastou 400 mil dólares para expor a coleção durante um ano nos Estados Unidos. A primeira mostra foi na Galeria de Arte Corcoran, em Washington, onde cerca de 80 mil pessoas pagaram nove dólares para ver objetos dos czares. Foi ai que começou uma confusão, pois o Kremlin, que andava de caixa baixa, ficou animado com o sucesso da exposição e reivindicou participação nos lucros. Diante da recusa da fundação, o governo russo exigiu o tesouro de volta, com a argumentação de que precisava ilustrar a comemoração do 850º aniversário de Moscou. Novamente os americanos recusaram, criando-se uma pendenga diplomática que lembrou os tempos da Guerra Fria.
Imaginem que o diretor da Galeria Corcoran trancou as joias mais valiosas numa sala subterrânea e o resto da coleção, que estava num caminhão que a transportaria para a próxima mostra no Texas, ficou impedida de seguir viagem porque os russos bloquearam, durante todo o dia, a saída do veículo com carros da embaixada.
O ministro da Cultura russo na época, Mikhail Schvidkoi, viajou até a capital dos Estados Unidos para negociar a volta da coleção ao seu país. Mas o diretor da Fundação Russo-Americana, James Symington, continuou irredutível, apoiando-se nos termos do contrato inicial que deixou as joias e objetos de arte aos cuidados da fundação. As partes conflitantes divulgaram nota garantindo que as negociações estavam evoluindo.
Em meio à polêmica estavam objetos preciosos que fazem parte da história russa. Entre as peças guardadas pela fundação, estão objetos que pertenceram a Pedro, o Grande, Catarina II e outros. Entre as preciosidades, de valor inestimável, estão o bracelete com o diamante mais facetado do mundo, de 1771; um broche de ouro e diamantes com uma safira de 260 quilates, de 1862; coroa, cetro e globo usados por Catarina II e o brasão da família. O tesouro é parte do pouco que restou da família imperial russa. O ultimo czar, Nicolau II, foi executado com a mulher e seus cinco filhos em 1918 pelos revolucionários.
Mais recentemente, em 2005, na Fundação Armando Álvares Penteado - Museu de Arte Brasileira, em São Paulo, aconteceu a exposição "A herança dos czares", apresentando, pela primeira vez no Brasil e na América Latina, uma valiosa seleção de objetos escolhidos, alguns jamais exibidos além das fronteiras da Rússia. Testemunhas da riqueza e do requinte das cortes dos czares russos, as peças expostas foram símbolos do poder da dinastia dos Romanov, que liderou o Império Russo do século XVII ao início do século XX.
Trajes da corte bordados com elaborados desenhos em fios de ouro, prata e seda, ornamentos e joias com variedade de pedras preciosas e pérolas, objetos de uso diário, como caixinhas para rapé enfeitadas com pérolas e diamantes e baixelas em ouro e prata delicadamente gravadas, ostentam o luxo e a opulência da corte dos Romanov. Ao mesmo tempo, ícones raros, suntuosas vestimentas sacerdotais e objetos religiosos rituais atestam o importante papel da Igreja Ortodoxa junto aos czares e à aristocracia russa.
O terceiro poder, o do Exército, também foi representado na exposição por armas, uniformes ricamente bordados, condecorações e adereços usados para decoração dos cavalos reais nas paradas e procissões da corte, de várias épocas e estilos - obras que estão permanentemente expostas na Sala das Armas do Kremlin e que raramente foram mostradas fora da Rússia.
Algumas das peças mostradas nessas duas exposições, a de São Paulo e a de Washington, também estão reproduzidas no Livro das Joias do Czar, objeto desta matéria.

A capa do livro do czar

A Dinastia Romanov
Tudo começou em 1613, com um garoto de 16 anos numa pequena vila chamada Domino, fora de Kostroma. Ele era um Romanov e, embora todos os Romanovs tivessem sido exilados pelo czar Boris Godunov, eles ainda eram considerados parte dos boiardos, ou seja, da antiga aristocracia russa. A dinastia Rurik terminou com a morte do czar Fiodor e Boris Godunov, temendo perder o trono, decidiu acabar com a família Romanov. Na verdade, alguns astrólogos haviam predito a Boris que da família Romanov sairia o czar que reinaria sobre o Império Russo. Isto desencadeou inúmeras perseguições que obrigaram os pais de Mikhail a refugiarem-se em conventos, adotando a vida monástica. O czar Fiodor, que morreu, descendia do czar Ivan IV, chamado "o Terrível". Assim era chamado por seu gênio irascível. Muitos diziam que ele havia enlouquecido por causa da morte de sua esposa Anastásia, a quem amava apaixonadamente. Ivan encomendara a construção da catedral de São Basílio em Moscou e gostou tanto do resultado do trabalho que mandou cegar o arquiteto para que ele nunca mais pudesse construir outra obra prima como aquela. A catedral de São Basílio, seguramente um dos edifícios mais belos do mundo, ainda hoje ornamenta a Praça Vermelha, encantando a todos com suas cúpulas coloridas em forma de cebola.
Enquanto Boris Godunov sonhava com a eliminação dos Romanov, o sonho do príncipe Dimitri Pozharskiy era trazer o jovem Mikhail para reinar sobre a Rússia. O príncipe Dimitri e seu aliado de Nizhny Novgorod, Kozma Minin, ficaram à frente de um movimento contra a opressão religiosa. Eles sonhavam com um czar que unisse a Rússia e colocasse tudo no lugar. A resposta para seus anseios estava no jovem Mikhail, que vivia com sua mãe, Marta. Os poloneses queriam acabar com Mikhail, por temer que ascendesse ao trono, mas o garoto foi salvo por Ivan Susanin. Mãe e filho se mudaram, então, para o Mosteiro Ipatiev, por motivo de segurança. Dois meses depois, uma delegação chegou para notificá-los de uma eleição e pediram que Mikhail assumisse o trono. Eles ficaram muito preocupados e recusaram, mas foram persuadidos de que estavam a salvo e Mikhail aceitou a coroa da Rússia, tornando-se o czar Mikhail, o primeiro czar Romanov.
Mais de 200 anos depois, o czar Romanov era Alexandre II, o czar libertador, chamado assim por ter libertado os escravos e por se dedicar a obras de caridade. Ele se casou com uma linda princesa alemã, Marie de Hesse, teve oito filhos, mas não era feliz, pois não a amava. Então Alexandre conheceu Ekaterina Dolgoruky, a quem todos chamavam Katia, quase trinta anos mais moça do que ele e por quem Alexandre se apaixonou perdidamente. Anos depois, tendo sofrido vários atentados, Alexandre viria a colocar Katia e os três filhos que tivera com ela debaixo do mesmo teto que sua mulher, a czarina Marie. A czarina, em seu leito de morte, poderia ouvir os gritos dos filhos de Katia brincando no andar de cima.
Alexandre II, filho de Nicolau I, morreu num atentado a bomba, jogada em sua carruagem. O grupo responsável foi o grupo niilista Narodna Volya (A Vontade do Povo). Seu herdeiro era seu filho mais velho, Nicolau, que veio a falecer antes do czar morrer assassinado. O herdeiro passou a ser então Alexandre, o segundo filho, que se casou com a noiva do irmão, a princesa Dagmar da Dinamarca. A princesa Dagmar passou a chamar-se Marie Feodorovna. Alexandre III e Marie eram os pais do último czar, Nicolau II.
A dinastia Romanov foi a mais poderosa de seu tempo e a mais rica também. As joias da coroa czarista faziam as joias das outras casas reais da Europa parecerem bijuterias. Eles reinaram sobre 1/6 da terra, num regime autocrático, o que vale dizer que o czar representava Deus na terra. Sua vontade era lei e tinha nas mãos o destino, a vida e a morte, de todo o povo russo. Os Romanovs viviam numa opulência sem precedentes, em ricos palácios ou em suntuosos iates e davam as mais glamurosas festas. O que arruinou a dinastia Romanov foi a falta de percepção dos novos tempos e a dificuldade de se adaptar a eles. A Rússia continuava feudal no século XX. Tivesse Nicolau II feito concessões e algumas reformas, talvez o seu destino e o destino dos Romanov tivesse sido outro.


Nicolau I
Nicolau I (1796-1855) era filho do czar Paulo I. Recebeu uma educação séria, mas ficou afastado dos negócios no tempo de seu irmão Alexandre I. Em 1817, casou-se com a filha do rei da Prússia (Frederico Guilherme II). Com a morte de Alexandre, tendo seu filho mais velho Constantino renunciado ao trono, Nicolau subiu ao poder em 24 de dezembro de 1825, governando até 1855.
O começo de seu reinado foi atribulado, pois teve que lutar com o movimento revolucionário dos "Decabristas" ou "Dezembristas". Instalou um governo absolutista, conquistou Erivan à Pérsia e fez da Polônia uma província russa. Sucedeu-se depois a guerra com a Turquia na qual o Imperador tomou parte em pessoa, transpondo os Bálcãs, forçando-os até Andrinopla (Tratado de Andrinopla - 1829), abrindo os Dardanelos aos navios de todas as nações.
A Revolução de Julho na França e na Bélgica, teve a sua repercussão na Rússia: os polacos tomaram armas para reconstituir a sua independência. A insurreição falhou depois de algumas vitórias no começo, mas foi cruelmente reprimida. Em 1833, Nicolau I tomou a defesa da Turquia contra os Mehemed-Ali (Egito) e concluiu com ele o tratado de Unkiar-Skelessi, pelo qual se comprometeu a não deixar passar nenhum navio de guerra estrangeiro em Dardanelos.
Além disso, os russos esforçaram-se por penetrar até Khiva (expedição de 1929) e submeter as regiões do Cáucaso ainda independentes. A assimilação dos países polacos foi perseguida com a última energia e os Uniatas da pequena Rússia e da Rússia Branca foram, ou por vontade ou à força, reunidos à Igreja Ortodoxa Nacional. Em 1849, Nicolau I aproveitou as perturbações dos Principados Danúbios para ocupar e concluir o Tratado de Balta-Liman, que lhe dava uma espécie de protetorado. A pedido do imperador da Áustria pôs tropas à sua disposição para domar a Hungria revoltada.
Reconheceu em 1852 o Imperador Napoleão III, mas recusou-se a tratá-lo de "Senhor, Meu Irmão", o que já tinha recusado a Luiz Felipe. Parecia que era o árbitro da Europa. Julgou-se forte demais para executar projetos ambiciosos, que a muito nutria pela Turquia, mas a Inglaterra e a França desfizeram-lhes os projetos. Morreu na guerra da Criméia e foi sucedido por Alexandre II.


Para ver mais imagens, acesse o álbum de fotos do Jornal A Relíquia.

Um comentário:

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